segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Cotidiano e ruptura...

Eu calculava a hipótese tão remota de ouvir um sussurro qualquer, mas a porta entreaberta não permitia que ela se estabelecesse em meio àquela sala.
A vigília deveria começar tão cedo quanto pudesse, sem esperar que os convidados, se é que assim poderiam ser chamados, se debruçassem com suas lágrimas em oferenda.
Algumas súplicas poderiam surgir espontaneamente e a sensação de velório poderia começar a tomar conta daquele resto de mundo que dominava todo o enredo.
Seriam dias e dias seguindo rituais, sei lá de que origem ou com qual objetivo. Deveria haver um modo mais racional de compor as roupas, os gestos e principalmente os pensamentos. Afinal, a liberdade era cara demais e a sensação de recebê-la nas mãos, caídas do céu, deveriam fazer qualquer um sair aos pulos, mas para aquela ocasião bastaria um sofrido sorriso a esconder as verdadeiras sensações. E o que será que era verdadeiro no semblante das pessoas naquele final de dia? Tudo não passava de um simples teatro, sem personagens desconhecidos. Estavam mais para um grande picadeiro, cheio de malabarismos nas palavras, cheio de tropeços dos palhaços e ainda uma última plateia que assistia um tanto quanto apática à reação com o rumo que a história tomava, com as interpretações mal ensaiadas.
Mas eu era o único e verdadeiro ator a caminho de uma punição qualquer que me aguardava ao final da linha, nos meus capítulos finais. Aquela estranha sensação de que o mocinho morre no final, parecia constar das páginas terminais do autor.
Ainda assim, guardava uma última folha de arruda dentro da carteira ao lado de um São Jorge, envoltos na minha fé inabalável e uma irônica tristeza interminável. Mas minha fé era infinita e com mais vidas que um gato, misturada a uma poção de fênix.
Eu fiz a minha oração matinal e agora precisava me recolher de todas as manifestações de afeto, pois estava longe de merecê-las, mesmo porque nenhum sentimento de dor passava em minha alma. Nem mesmo uma gota de remorso por algo que tivesse deixado de lado, algum desencontro, uma briga ou questão mal resolvida. Agora o tempo se encarregaria de limpar o resto da poeira que ficou. Sim, novas poeiras seriam depositadas, mas antes de tomarem conta, a velha sujeira seria soprada e quem sabe comporia novos móveis em alguma outra velha casa.
Não encontraria jamais sócios para a dor, por isso não precisaria dividi-las na alegria. Bastava-me a consciência tranquila e uma sensação de paz de espírito. O travesseiro ainda me era confortável e meu sono abençoado.
Não conseguiria fazer de conta... Nunca fui assim e não seria agora a hora de fazer uma "média", ainda mais porque não precisava. Na verdade, desejava sim, um abraço amigo, mas não precisaria fazer muito esforço para esquecer e muito menos para lembrar de qualquer fato ou lembrança que me estimulasse qualquer saudade. O velcro estava selado e o verso guardou suas rimas na mente de um poeta qualquer.
Logo, tudo terminaria e a vida recomeçaria como se um dia nada houvesse acontecido e as manhãs voltariam a ser azuis e as cores da cidade pareceriam celebrar a minha volta aos campos de batalha.

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