terça-feira, 20 de novembro de 2018

A vida, o tempo e o gênio...

A vida é sabia e dissimulada, que aos poucos engana e disfarça a sua própria existência, ainda que ela saiba exatamente quando acabou.
Porém, no seu transcurso existe uma tênue linha que sobrepõe vida em cima de vida, todas aquelas entrelaçadas em nossa passagem. Algumas nítidas, outras nem tanto, que vão passando e se esquecendo, como se fôssemos imortais.
E na hora do mais feliz momento, despertamos. Parece que pegamos no sono. Afinal faz parte dela, adormecer no percurso sem nos darmos conta... Ainda bem que o sonho passa para bons e maus momentos.
E nesse leve instante, questionamos o que é que realmente importa.
Eu, às vezes, acho que é uma crueldade deixar de lado e prosseguir, porque a única coisa que nos resta é lidar com o futuro, ainda que alguns carreguem o passado como um fardo e outros apenas colocam peso no que está para vir e de forma nem sempre otimista.
Faz parte também,  deixar vazia a estante, trocar alguns porta-retratos com tudo dentro. Faz parte também esquecer de vez em quando, para que não se torne um peso morto. E depois arregaçar as mangas para construir o que está por vir ou o que ainda ficou inacabado. É preciso dar valor às peças do seu xadrez que restaram no tabuleiro e refletir com elas o próximo passo, a sua nova estratégia de vida.
A vida é o que é. Parece única, mas são muitas dentro de uma. E o mais difícil é perceber quando uma termina ou quando outra começa. Não sei se isso deveria ser uma atitude própria. Não examinei em detalhes como os gênios trataram dessa façanha, mas imagino que de alguma forma, eles traziam suas escolhas em rédeas curtas, porque disso dependia a sua felicidade.
Só sei que aprendi que felicidade não implica em ausência de dor e sofrimento. Ao contrário, a maior parte do tempo, uma dor pode gerar um sofrimento, que será preciso para se obter um instante feliz.
E isso ecoa tão perto dos meus ouvidos, da mesma forma com que escuto os sons do fim, dos quais me desvio e em outros, vou de encontro, porque não para se esconder indefinidamente. Não há tempo para ficar se esquivando sempre. Na verdade, não há motivos para ficar evitando o inadiável.
E talvez por isso, eu sempre volte ao questionamento sobre os gênios: será que eles escrevem seu próprio livro? Quando estabelecem que um capítulo acabou?
É fácil saber quando uma página está cheia e virar outra, mas o capítulo, não. Ele é aberto e pode ficar inconclusivo até que a gente perceba que não faz mais sentido. Então é melhor antes, escolher um desfecho adequado e a tempo, para que não fique cansativo, prolixo e desnecessário. Já passou da hora...
Em boa medida, já que nem sempre temos o controle ou não somos capazes de compor a música, que ao menos aprecie. Porque é preciso descobrir quando um capítulo termina e quando outro começa. Ainda que a gente não protagonize essa escrita.
A vida nos tornou personagem de um livro, da qual nem sempre somos o autor... Ainda que a genialidade dependa disso.

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